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Gabriel Giraudon é encontrado no MOSB

08/07/2016

 

 

Durante o processo de tombamento, higienização e catalogação do acervo de música do MOSB, trabalho referente ao prêmio ProAC 2015, um nome atraiu a atenção do Coordenador Técnico de Música do projeto, Fernando Binder: Gabriel Giraudon, músico francês radicado em São paulo mas com poucas obras conhecidas em acervos brasileiros. Nós temos obras dele e, até o momento, não existem registros em outras instituições destas obras. Em breve as obras estarão disponíveis para consulta.

 

Sinal dos tempos: um professor de Composição Transcendental chega em São Paulo em 1860.

Por Fernando Binder *

 

Até meados de 1870, São Paulo era uma cidade rural e provinciana. As famílias abastadas viviam reclusas em suas chácaras, as ruas eram dominadas por pobres, escravos e tropeiros. As diversões públicas eram de dois tipos: as solenidades oficiais quando se iluminava a cidade, montavam-se os circos de cavalinhos e as bandas percorriam as ruas anunciando os folguedos. A igreja patrocinava procissões e festas de adros, transformadas nas atuais festas juninas. Hábitos mais urbanos da cultura letrada eram cultivados pelos estudantes da Faculdade de Direito, fundada em 1828, mas que influíam muito pouco na vida reclusa dos paulistas.

 

Isso mudou com o sucesso da economia cafeeira.A transferência das fazendas de café do Vale do Paraíba para o Oeste Paulista transformou a cidade de São Paulo num grande hub ferroviário, ligando-a ao interior do Estado, ao Rio de Janeiro e ao porto de Santos.

Também foi no último quartel do século XIX que o trabalho escravo do negro começou a ser substituído pelo assalariado branco. À medida que o século XIX se aproximava do fim, chegavam da Europa contingentes cada vez maiores de imigrantes. Inicialmente eles iam para as lavouras de café, mas um grande número acabava em São Paulo. Assim, a cidade que em 1872 contava com pouco mais de 30 mil almas tinha, em 1900, quase 240 mil habitantes. Em 28 anos a população de São Paulo multiplicou por oito.

 

Os trens que levavam o café ao porto de Santos voltavam trazendo toda sorte de produtos industrializados importados da Europa. Entre estes havia uma mercadoria que propagava uma mística muito especial. Era uma máquina de madeira, ferro e feltro com centenas de partes conectadas por mecanismos complexos que a um só tempo sinalizava riqueza, distinção, cultura e bom gosto e garantia toda a sorte de entretenimento, dos simples aos mais complexos, dos mais corporais aos mais espirituais. Era realmente uma máquina maravilhosa, era o piano.

O século XIX pode ser justamente chamado como ‘o século do piano’. Este instrumento era o espelho da burguesia urbana que o capitalismo industrial produzira. Virtuoses como Liszt, Thalberg e Gottschalk assombravam plateias numa nova forma de espetáculo: o concerto pago. Nas salas das casas o piano acompanhava toda a sorte de canções lieder, melodie, árias de óperas, lundus e modinha.

 

Nem todos os imigrantes iam para as lavouras de café, um pequeno número deles vinha para exercer ofícios especializados. Gabriel Giraudon (1834-1906) foi um desses imigrantes, em 3 de novembro de 1860 o Correio Paulistano anunciava o seguinte: “Mr. Gabriel Giraudon tem a honra de participar aos senhores amadores de música de São Paulo que começará no dia 1º. de novembro suas lições de Piano, Canto, Harmonia e Composição Transcendente”.

Giraudon era francês e tinha sido aluno de Sigismund Thalberg, o único pianista que conseguia rivalizar com Liszt, um dos pianistas mais virtuosos de todos tempos e um dos músicos mais influentes de sua época. Giraudon também havia estudado nos Conservatórios de Marselha e Paris, uma enorme vantagem para ele e uma grande novidade no Brasil.Para se ter uma ideia do que isso representava convém lembrar que o Conservatório do Rio de Janeiro, fundado em 1841, só começou a funcionar (precariamente) em 1848. O Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, a primeira escola do gênero na cidade é de 1906! Quando Giraudon chegou em São Paulo, o ensino música ou seguia os moldes herdados dos tempos coloniais, o ensino dos mestres de capela voltado para a música sacra, ou era feito por professores particulares com pouca instrução técnica para dominar aquele instrumento tão poderoso: o piano.

 

Sinal dos tempos, Giraudon vinha para ensinar Composição Transcendental.Ele não se anunciou como compositor de contraponto, técnica de combinar várias melodias, o bê-á-bá por onde se começava a ensinar composição desde o século XIII. Giraudon vinha formar pianistas virtuoses. E conseguiu, foram seus alunos uma geração de músicos brasileiros importantes: Alexandre e Luiz Levy - filhos de outro francês, Henri-Louis Levy, no Brasil desde 1848 e em São Paulo desde 1860 - Henrique Oswald, Antonieta Rudge e Magdalena Tagliaferro.

 

Até meados do século XIX um músico fazia de tudo, a partir dali o ofício começou a se especializar: compositores compõem, regentes regem, cantores cantam e instrumentistas tocam. Mas isso ainda não era possível em São Paulo. Além de professor, Giraudon ainda foi diretor de orquestra, regente de coral, pianista acompanhador e compositor. Por isso é de se supor que Giraudon tenha composto, arranjado e orquestrado muita música em seus 40 anos de atividade profissional. Contudo quase nada dele nos chegou. Sabemos que ele compôs uma Abertura de Concerto para grande orquestra, opus 61. (Opus é uma palavra latina e significa obra, em música é utilizada para identificar uma peça ou um conjunto de peças. A Nona Sinfonia de Beethoven é o opus 125, o seu opus 1 é formado por três trios para piano, violino, violoncelo). Podemos concluir, portanto, que Gabriel Giraudon tem pelo menos 60 opera (forma plural de opus). A Biblioteca Nacional da França possui 6 músicas suas, destas, 4 possuem número de opus. O opus 11 é uma peça para piano, Rêve de bonheur, mélodie-étude pour piano, e foi publicado em Paris em 1858. Giraudon veio ao Brasil em 1859, é de se supor que uma parte destes 60 opera foram compostos em São Paulo. Onde estarão?

 

Mas nem tudo está perdido. Há poucos dias foram encontradas três partituras de Giraudon no MOSB. Ainda não foram localizados exemplares destas três peças nas principais bibliotecas brasileiras. As músicas são canções para canto e piano:

  • Saudades do Mar, barcarola para tenor ou soprano, com poesia do dr. Whitaker, impressa pela Sydow e Cia no Rio de Janeiro. Foi dedicada à aluna Anesia Malvina da Silva Prado.

  • Tu ne saurais m’oublier, romance para canto e piano, poesia de Mme. Emile de Girardin, impressa em Paris por Alphonse Leduc.

  • Soupirs d’une fleur! Rêverie, poesia de Maurice Bouquet, impressa no Rio de Janeiro por J. M. Alves da Rocha. Dedicada à sua aluna Francisca Saldanha Marinho.

 

* Fernando Binder é doutorando no Programa de Pós-graduação em Música da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. É professor de História da Música na Escola Municipal de Música da Fundação do Theatro Muncipal de São Paulo. É Coordenador Técnico do Projeto "Preservação do Acervo Musical José Geraldo de Souza ” Prêmio ProAC da Secretaria de Estado da Cultura - SP".

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